Tesouro escondido no Alentejo

O Hotel Convento de São Paulo, situado na Serra d’Ossa, é um tesouro a descobrir.

O convento foi sede da congregação dos Monges de Cristo da Pobre Vida, aprovada pelo Papa em 1578. Os monges principiaram essa obra grandiosa que foi bastante ampliada e melhorada no século XVIII. Os corredores e as salas estão decorados com 55.000 painéis de azulejos representando a vida de Cristo. É a maior coleção privada azulejar de Portugal assinada por mestres portugueses como Gabriel del Mano e António de Oliveira Fernandes. 

            Descobri este hotel, por acaso, situado muito próximo da Aldeia do Monte, concelho do Redondo no Alentejo. Fiquei tão encantada que voltei duas vezes. É um museu vivo e um hotel rural de qualidade ímpar. Está localizado numa propriedade de 600 hectares com olivais, laranjais, sobreirais e terras cultivadas onde se colhem muitos dos produtos que são preparados nas cozinhas do hotel. Conta-se que individualidades famosas à procura do silêncio e paz do convento, nele permaneceram algum tempo: Dom Sebastião, a caminho da batalha de Alcácer-Quibir, Dona Catarina de Bragança, ao enviuvar do rei inglês Charles II, e os meninos de Palhavã, filhos bastardos de D. João V.

            Quando em 1834, por lei, foram extintas as ordens religiosas, e os setenta monges obrigados a abandonar o convento, e temendo vandalismo – como de facto veio a acontecer durante mais de 30 anos -, emparedaram o segundo andar antes de saírem. Ficou, assim, vedado o acesso ao pisoonde se encontravam os grandiosos painéis.

O convento acabou por ser vendido em hasta pública e adquirido por um tutor para uma jovem que, só passados muitos anos de ser proprietária, se deslocou à propriedade para a mostrar ao marido. O que foi descoberto no convento, apesar de destelhado, sem portas e janelas, deixou a todos boquiabertos. 

O convento continua na posse dessa família Leote, há três gerações. Foi criada em 1936 a Fundação Henrique Leote, pelo proprietário atual, com o objetivo de continuar a recuperar e preservar o espólio e desenvolver atividades que deem a conhecer a história, a arte e cultura do concelho do Redondo. Disponibilizar o convento para um hotel rural foi uma forma de rentabilizar parte do espaço e permitir que continuem as obras de melhoramento. A igreja e capelas estão ainda em fase de recuperação.

É um lugar perfeito para se passar um fim-de-semana, organizar um congresso ou uma festa especial. O hotel tem duas piscinas, um claustro com o jardim “quatro estações”, uma capela decorada com frescos, que era a sala de jantar e o refeitório dos monges, onde se servem uns pequenos-almoços magníficos. 

O que me agradou sobretudo foi ter-me sido proporcionada uma visita guiada ao hotel-museu vivo e depois poder circular livremente pelo espaço, em particular nos corredores de painéis maravilhosos onde se encontravam as celas, hoje transformadas em quartos modernos e confortáveis. É muito relaxante descansar debaixo das árvores frondosas e ouvir a água fresca correr dum dos muitos fontanários à moda italiana, mergulhar numa das piscinas e admirar as estátuas ao estilo rococó, que se encontram um pouco por toda a propriedade. O hotel é um museu mas sem a frieza que, geralmente, se sente num museu; sentimo-nos num ambiente familiar, apesar do seu mobiliário requintado, tapeçarias e carpetes antigas.

Os espaços de salas, corredores, jardins, igreja e outros são disponibilizados para mostras de arte, espetáculos de música, dança e canto. Uma pequena boutique dá destaque aos produtos artesanais regionais.

O hotel proporciona também passeios pedestres pela propriedade, de dificuldades variadas, e a sua localização convida-nos a fazer percursos próximos de grande interesse histórico: Capela de Nossa Senhora do Monte, Fonte da Senhora da Saúde e Alto de São Gens. A vila do Redondo fica a 10km de distância.

Há vários destes lugares históricos transformados em pousadas e hotéis em Portugal. O Hotel Convento de São Paulo é apenas um exemplo das maravilhas ao nosso alcance, e de que podemos desfrutar, sem precisarmos de ser milionários.

Santa Clara-a-Velha

O cinquentenário da inauguração da barragem de Santa Clara, no concelho de Odemira, Alentejo, foi comemorado no passado dia 10 de maio com atividades que vieram lembrar a sua importância, a aldeia que era antes e aquela em que se tornou depois. Esta data foi significativa para mim e tantos outros que viram erguer os enormes paredões e represas durante os dez anos que levou a construir. Como nos prendia a atenção toda a maquinaria e materiais necessários para erguer aquela grande obra!

Viajar até Santa Clara-a-Velha é regressar ao tempo de uma infância despreocupada, feliz e de muitas descobertas. Foi onde vivi, desde os cinco anos de idade até me mudar para Lisboa quando ingressei na universidade. O rio Mira, que passava pela aldeia com um caudal considerável até o prenderem na barragem, está indelevelmente ligado à minha aprendizagem de vida. 

Na margem direita, um paredão e muro baixo caiados de branco com barra azul, separam as casas do leito do rio, fazendo também vezes demiradouro. As minhas lembranças das estações do ano, em particular do verão e do inverno estão associadas ao rio. As do inverno, incluem as cheias que causavam grandes preocupações e prejuízos. As crianças eram constantemente avisadas para não se aproximarem da água. O caudal barrento arrastava laranjeiras, porcos, sacos de farinha e tantos outros haveres que os mais fortes e corajosos tentavam salvar junto da ponte, e restituir aos donos. 

No verão, o rio atraía-nos até ao pego fundo junto das ruínas da ponte romana chamada deDona Maria;era aí que nos refrescávamos dos grandes calores, mudando de roupa às escondidas, junto dos loendreiros cor de rosa. Nas águas meio paradas do rio, cresciam os nenúfares brancos e amarelos, ainda hoje as minhas flores favoritas, que pintores como Claude Monet souberam retratar de modo único.

O rio tinha utilidade para as nossas mães que aí lavavam a roupa e as tripas dos porcos, após a matança. A ajuda das crianças era bem-vinda, com um pauzinho que ajudava a virá-las. Nós mergulhávamos os pés nos dias de verão para brincar na água corrente.

Umas passadeiras, na parte mais estreita do rio, levavam ao poço coberto, aonde se ia buscar a água para casa nos cântaros de barro. Foi dessas passadeiras que, aos sete anos de idade caí, fui arrastada pela corrente numa manhã mas, graças a Deus, salva pela minha mãe. 

Era ao redor do poço, na margem esquerda do rioque, durante o verão, se realizavam as duas feiras anuais. Vinham o circo, os carrocéis e as barraquinhas onde se vendia de tudo. Havia feira de gado,ciganas que liam a nossa sina, era um abrir de horizontes insubstituível.

A barragem de Santa Clara, construída nos anos sessenta com o objetivo de fornecimento de água e rega foi, até à barragem do Alqueva, a maiorde Portugal e uma das maiores da Europa.  Ficou situada a três quilómetros da aldeia, e veio mudá-la completamente e a toda a região.

A pousada de Santa Clara, no alto da serra e com vista privilegiada para a água, assim como outros pequenos hotéis e o alojamento rural, começaram a atrair para esta zona muitos nacionais e estrangeiros que procuram tranquilidade, desportos aquáticos, pesca desportiva, entre outras atividades. O saboroso achigã abunda nas águas da barragem e as caldeiradas deste peixe de rio são muito apreciadas.

À entrada da aldeia, encontra-se a igreja de Santa Clara de Assis, datada do século XVI,  que deu o nome à aldeia.  Atravessado o Largo, desce-se uma rua estreita cuja ladeiraleva ao rio. Dele, o que resta é um espelho de água artificial e espaços ajardinados para convívio. As passadeiras continuam lá, testemunhos dum passado que também foi meu, em que as águas do Mira por ali corriam, vindas da Serra do Caldeirão para desaguar no mar, na formosa vila de Milfontes.

LONDRES, Grâ-Bretanha Não há amor como o primeiro?

LONDRES, G.B.

Não há amor como o primeiro?

Há pessoas que vivem felizes sem nunca ter saído de suas casas; outras que sonham viajar mas não conseguem pôr em prática essa fantasia. Depois, há o grupo a que pertenço: não dá valor a fios de ouro, anéis de diamantes ou casacos de peles – todo o dinheiro que junta é para comprar bilhetes de avião.

Donde me vem o gosto pelas viagens? 

Comecei a viajar aos 21 anos, quando já não precisava de autorização para sair do país. Inglaterra foi o meu primeiro destino. Estudava inglês e alemão no liceu e meu pai tinha-me avisado quando escolhi línguas: “Filha, nunca serás fluente numa língua estrangeira se não viajares e a praticares no país onde essa língua seja falada. Vais precisar de ir à Inglaterra e à Alemanha.” 

Em 1970, no Portugal da ditadura, não era muito comum uma “menina” viajar sozinha. Tive oposição de família e amigos (infelizmente, meu pai morrera um ano antes e perdi o seu apoio). Com pouco dinheiro para viajar, foi através do Instituto Britânico em Lisboa onde estudava inglês, que encontrei uma família em Londres para onde fui servir como “au pair girl”. A troco de pequenos serviços domésticos (um dia e duas tardes por semana), conseguia alojamento e algum dinheiro. O mais importante era ter tempo para frequentar aulas de inglês e visitar museus, galerias de arte, parques e jardins.

O meu mundo nunca mais foi o mesmo depois da visita a Londres. Os museus de Londres, com entrada gratuita, oferecem uma gama de conhecimentos infindável. As mais belas obras de arte estão ao alcance de todos. Londres foi a primeira grande metrópole que conheci e onde aprendi o significado de multiculturalismo, vinte e cinco anos antes de chegar a Toronto. Em Picadilly Circus, Trafalgar Square ou nos jardins do Buckingham Palace, via desfilar na minha frente gente de todas as raças, vestida e penteada da maneira exótica. Era o tempo dos Beatles, da Mary Quant e dos “punks”. 

Londres é uma cidade fundada pelos Romanos há cerca de 2000 anos, com parques e jardins verdejantes, abadias e catedrais, torres, palácios e múltiplas estátuas. Há o encanto do Rio Tamisa que serpenteia pela cidade e é meio de transporte de pessoas e mercadorias. Londres tem cinema, teatro, dança e espetáculos para todos os gostos, todo o dia e toda a noite.

“Quem se cansa de Londres é porque não gosta de viver pois há em Londres tudo o que a vida pode proporcionar” disse Samuel Johnson. 

Regressei várias vezes à cidade, desde essa primeira viagem, e quando me perguntam qual é a minha cidade favorita, de todas as que conheço, não hesito em dizer: Londres! 

Será mesmo verdade que não há amor como o primeiro?


À porta da casa da família Cleveland

Londres – Cidade antiga e ultramoderna

“Quem se cansa de Londres, é porque não gosta de viver (S. Johnson).  Eu gosto de viver, por isso não me canso de ir a Londres.  A última vez que estive nessa cidade foi em junho deste ano. Perdi, por apenas duas semanas, o casamento do príncipe Harry com Meghan, enlace feliz de uma história verdadeira de príncipe inglês que casa com uma americana sem gota de sangue azul. 

Não me surpreende que grande parte dos britânicos continue fascinada pela monarquia. Reis e rainhas, príncipes e princesas, e a classe nobre inglesa,  ao longo da história do país, têm servido de inspiração para romances, peças de teatro (quem é que não ouviu falar de Shakespeare?), filmes, e séries de televisão famosas. Mais recentemente, a Netflix popularizou a vida dos nobres com as séries “The Tudors” (2007), “Downton Abbey” (2010), “The Crown” (2016), para mencionar apenas algumas. O mundo todo quis assistir à cerimónia de coroação da Rainha Isabel II, aos casamentos de Diana e Charles, de William e Katherine, de Harry e Meghan. 

O ambiente sumptuoso da Westminster Abbey, da catedral de São Paulo, do Buckingham Palace, do castelo de Windsor, a todos faz sonhar. Sempre que a minha neta Lua pede: “Avó, conta-ma uma história verdadeira de príncipes e princesas”, não tenho qualquer dificuldade. Recorro à história inglesa que é fonte inesgotável. Já lhe contei sobre a princesa portuguesa Catarina de Bragança, que se tornou rainha ao casar com Charles II, no século 17, e deixou aos ingleses um legado inesquecível – ensinou a corte a apreciar chá, e criou o gosto pela “marmalade”, doce feito das laranjas que mandava ir de Portugal.  

Londres, porém, é mais do que a cidade da “Tower of London”, das “Houses of Parliament”, “Big Ben”, e de centenas de outros monumentos antigos. Nesta última visita à cidade, em junho de 2018, deslumbrei-me com os edifícios modernos, assinados por arquitetos de renome internacional. Surgiram nas últimas duas décadas, e dão à cidade, um perfil e cunho particulares. A arquitetura antiga da cidade, o ar vitoriano que nos é familiar aparece-nos em harmonia com obras de arquitetura arrojadas que podem chocar alguns, mas causam a admiração de outros. 

Quem visita Londres nestes dias, vai admirar as espantosas estruturas como “The Schard”, uma pirâmide esguia de 87 andares e 306 metros de altura, perto da Torre de Londres, o “Tate Modern”, museu de arte moderna e contemporânea, ligado a St. Paul’s Catedral pela ponte Millennium, e o “The London Eye”, um dos mais procurados observatórios da cidade, em forma de roda gigante, na margem esquerda do Tamisa, e tantos outros.  

Escrever sobre Londres é impossível sem mencionar as pessoas. Devemos imenso à ciência, à música, à literatura, ao cinema, à televisão, às artes plásticas, em resumo, à cultura produzida na Grâ-Bretanha. Mas, esse teria que ser um assunto a desenvolver numa outra crónica.

O Canadá é um dos quinze países da Comunidade das Nações (Commonwealth) e a soberana de Inglaterra tem alguma influência, mais simbólica do que política, no país. Visitar a cidade de Londres será uma boa experiência para os canadianos pois encontrarão no Reino Unido as raízes da cultura anglo-saxónica que nos é familiar.

Ir a Portugal via Londres é uma boa alternativa para quem não gosta de viajar à noite. A Air Canada tem um voo diário que sai de manhã e chega à noite. Infelizmente nenhuma companhia oferece “stopover”, isto é, faz escala, para se poder parar uma noite ou duas, e seguir viagem com o mesmo bilhete. É preciso comprar dois voos diferentes. Não faltam opções de voos, incluindo companhias “low cost”, de Londres para Lisboa. 

Language and travelling

I worked from 1972 until now, 2017, teaching Portuguese. I started in Lobito, Angola. The opportunity of travelling to west Africa was open to me if I applied to be a secondary teacher. I  was accepted to teach English and Portuguese.  Did I ever plan to be a teacher? No way. But I loved my experience; the students were wonderful, the city was amazingly beautiful, the people were friendly. I was happy to join my brother Luís who was serving in the military. 

The first photograph you will find in my blog is from Lobito, Angola. I will cherish the images I have from living in the “restinga”, a small paradise of white sand beaches, transparent, calm warm water and natural shade of palm trees and “aracuárias”. I was 23 three years old and until now I never stopped being an educator and caring about teaching Portuguese

Viagem aos 4 anos

De Santa Vitória, a aldeia onde nasci, a Beja, capital do distrito, são vinte quilómetros. Tinha quatro anos, quando fui a Beja “tirar o retrato”, na camioneta da carreira, com meus pais e meus dois irmãos . Nunca me esquecerei desse evento pois o fotógrafo desaparecia por detrás da máquina e eu mexia-me do meu lugar à procura da cara dele. Depois de sair da minha posição uma ou duas vezes, o meu pai disse-me: “Filha, fica quietinha, estamos a tirar um retrato para irmos para um lugar chamado Canadá; há lá ursinhos brancos, vais gostar muito de ver”.

Anos mais tarde, perguntei ao meu pai porque razão nunca tínhamos ido para o Canadá. Meu pai sonhara ter tido a oportunidade de emigrar mas, apesar de se ter candidatado, no início dos anos cinquenta quando esse país abriu as portas aos portugueses, o pedido fora recusado. Como escriturário da Casa do Povo, e barbeiro depois do trabalho, não tinha mãos “calejadas” e o Canadá procurava trabalhadores rurais. Nunca esqueci a tristeza e deceção dele. Passados mais de trinta anos, emigrei para o Canadá com um contrato de professora para a mais prestigiada universidade do país – a Universidade de Toronto. Do meu pai, herdei as mãos finas, o gosto pela educação, o sonho de viver no país dos ursinhos polares e, especialmente, o desejo muito forte de alargar meus horizontes. 

Esta foto que encontrei na net representa bem a imagem que guardo do momento de tirar o retrato.

Portuguese language and Canada

I spent almost half of my life in Canada teaching Portuguese at the University of Toronto. Teaching the Portuguese language took me to lots of places and gave me many opportunities of discovering the world.

I love curating exhibits and one of my last ones was done to celebrate 70 years of Lusophone Studies at the University of Toronto. It took place at Robarts Library during the month of May. 

The image shows a coin that commemorates the 8 centuries of the Portuguese language.

Brasil – sol, calor, praia

Adoro o sul do Brasil no mês de fevereiro; os dias cheios de sol, as temperaturas amenas e o oceano tão perto e convidativo. A minha rotina é caminhar na praia na companhia de garças e gaivotas, às vezes pássaros de pernas longas de que não sei o nome. As ilhas “Três Irmãs” no horizonte, os morros cobertos de mata atlântica a toda a volta, e a praia de areia branca e fina convidam ao silêncio e encantamento. As poucas pessoas que se encontram na praia apreciam, como eu, a privacidade e o silêncio. Todos os dias me sinto privilegiada e agradeço ao universo a oportunidade de estar comigo mesma no meio de tanta beleza.

Praia do Pântano do Sul/ Praia dos Açores – Ilha de Santa Catarina, Brasil
Ribeirão da Ilha, sempre uma beleza ao pôr do sol